sexta-feira, 24 de agosto de 2012

ADEUS NÚMERO TRÊS

Deixo-te com tua vida

tua gente
com teus pores-do-sol
e teus amanheceres.
 
Semeando tua confiança
deixo-te junto ao mundo
derrotando impossíveis
segura sem seguro.
 
Deixo-te frente ao mar
decifrando-te a sós
sem minha pergunta às cegas
sem minha resposta rota.
 
Deixo-te sem minhas dúvidas
pobres e mutiladas
sem minha imaturidade
sem minha veteranice.
 
Mas também não creias
de pés juntos em tudo
não creias nunca creias
neste falso abandono.
Estarei onde menos
esperares
por exemplo
numa árvore anciã
de obscuros cabeceios.
Estarei num distante
horizonte sem horas
na marca do tato
em tua sombra e minha sombra.
 
Estarei repartido
em quatro ou cinco meninos
desses para quem olhas
e em seguida te seguem.
E tomara possa estar
de teus sonhos na trama
esperando teus olhos
e te olhando.



Mario Benedetti ( Meu preferido poeta uruguaio)

domingo, 19 de agosto de 2012

A DIALÉTICA DAS CORDAS

Ele vem!

Se eu puxar ele vem...

Mas só que eu posso ir junto...


Valenttina (Agosto, 2012)
FALE

Silêncio,
modo de falar...

Abraço,
modo de falar...

10 minutos abraçados...

em silêncio...



O que me diz?


Valenttina (Julho, 2012)
SENSÍVEIS

Pessoas que pensam,
geralmente
são sensíveis.

Geralmente,
pessoas são sensíveis
quando pensam.

Sensíveis,
geralmente,
são as pessoas que pensam...


Valenttina (01 de Agosto de 2012)
Certas coisas
não se podem deixar para depois.

Muitos poemas perdi
pensando: "depois escrevo",
"agora estou almoçando"
ou "consertando a porta".
Assim, adiei-perdi
o melhor? de mim.

Certas coisas
não se podem deixar para depois,
e nisto incluo: frutos no galho,
mudanças sociais,
certas coxas e bocas
e esta manhã que se esvai.

Certas coisas
não se podem deixar para depois.

O amor não se adia
como se adiam o imposto, a viagem, a utopia.
O desejo sabe o que quer,
detesta burocracia.

Feito depois, o amor
é murcha lembrança
do que, não sendo, seria.

Certas coisas
não se podem deixar para depois.

Como o amor e as pessoas,
não se pode recuperar
- a poesia.

(Certas Coisas - A. R de Sant'anna )

Dizem?

Dizem?
Esquecem.
Nao dizem?
Disseram.

Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.

Por quê
Esperar?
Tudo é
Sonhar.



Fernando Pessoa

sexta-feira, 27 de julho de 2012

sábado, 16 de junho de 2012




DAS MENTIRAS QUE EU NÃO CONTEI...

Do pouco que julgo ter aprendido sobre a mentira, ou melhor, sobre a prática de mentir, sei que posso levar algumas “lições úteis”... Não pretendo fazer um apontamento meramente moral sobre ela, mas queria dividir um pouco sobre o que aprendi mentindo, sendo “pega” e pegando pessoas na mentira. Ainda que  compreendendo as razões de cada um para isso...
Uma das coisas que aprendi sobre a mentira é que ela pode ser – e geralmente é – uma forma de esconder algo. Mas, também pode ser uma forma de revelar, principalmente sobre como as pessoas lidam com a “verdade” (conformidade com o real, representação direta de alguma coisa que a gente vive e /ou pensa).
Quando “pegamos” alguém “na” mentira , é como se por um instante virássemos psicólogos, animais coléricos (quando ela nos atinge e respondemos instintivamente) , ou simplesmente caçadores d@[1] mentiros@. É como se “a presa” estivesse ali exposta para nós e sem saber que está sendo “observada” pela (o)  caçadora (o). Enquanto @ mentiros@ acha que só el@ sabe de sua mentira, a gente pode manipular  se  fazendo de “besta”, podemos nos afastar dessa pessoa ou ter uma conversa franca com ela. Em suma, existem n’ possibilidades. Por isso, uma das coisas que aprendi é que se for mentir, que a gente se certifique que essa mentira vai ser de fato “necessária” e/ou eficiente (secreta). Se for para sermos mentiros@s em algumas situações, que sejamos mentirosos eficientes e conseqüentes.
Ainda sobre a mentira, sabemos que nem sempre mentimos por uma razão meramente egoísta, como; mentir pra se proteger, para tirar vantagem, para não assumir responsabilidades, mentir coletivamente, e por aí vai... Às vezes mentimos a pedido de alguém, mentimos por um momento por achar que poderemos fazer uma discussão delicada em outra oportunidade, mentimos muito para as crianças que por vezes não compreendem a barbárie do nosso mundo, mentimos para não nos expor, para não mostrar algo de nós que não queremos mostrar. Afinal, a mentira também tem suas razões.

Também mentimos para nós mesmos, principalmente quando não queremos encarar uma realidade que nos é posta e que a gente não quer ver ou queremos ver de outra forma. Inclusive, esse último caso (de mentir para se mesmo), talvez seja uma das condições mais perigosas da mentira, pois a gente acaba não fazendo e nem correndo atrás do que a gente realmente quer com as realidades que são postas em nossas vidas, abdicando de sermos sujeitas da nossa “história real”.

Outro perigo da mentira é o seu uso “indiscrimidado” , quando é “usada” de forma muito freqüente e inconseqüente, como se fosse uma comida que necessitássemos de horas em horas, nos parece revelar um comportamento um tanto “covarde” ou talvez “patológico”, de fuga da “realidade” ou da “insensibilidade sobre as conseqüências da mentira” em sua vida e na vida das pessoas que se relacionam conosco. Precisamos ter cuidado com o uso da mentira, porque acredito que devemos ter em vista o uso da franqueza em nossas relações, que historicamente em nossa sociedade traz como conseqüências relações mais honestas, confiantes e duradouras.
Tendo o uso da verdade como perspectiva, por mais que essa seja apenas um ponto de vista pessoal sobre alguma coisa ou situação, quando ela se apresenta no lugar de uma mentira a gente acaba tendo uma postura franca (por vezes corajosa) de encarar as coisas, isso não só nas nossas relações com as pessoas, mas também com nós mesm@s.
Se “só a verdade é revolucionária”, ser franco talvez seja a forma mais libertária e visceral de se relacionar conosco e com as pessoas.
Precisamos aprender a ser francos sim, inclusive, quando mentimos.






[1] Uso o símbolo “@” para designar os dois “sexos” durante o texto, pois nele contém o formato de um “o” e do “a” ao mesmo tempo. Com isso, eu evito a escrita do português que tem como regra a generalização do plural para uma realidade que só abarca o gênero masculino, usar o “@” é uma forma de incluir e fazer referência também às mulheres de forma sintética durante a escrita de um texto. Aprendi isso com uma camarada feminista da comunicação e até hoje não esqueci.


Achei este texto interessante: 

http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?from_info_index=21&infoid=6762&sid=582

Apesar de estar ciente que não se pode enquadrar o perfil "d@s brasileir@s" através da literatura, como costuma fazer @s noss@s cientistas sociais (em especial @s antropólog@s), creio que ele acrescenta na forma de vermos os personagens femininos da literatura. E claro, a definição de Machado de Assis e sua Capitu é de botar fé:

Machado, "bruxo do Cosme Velho" faz com que cheguemos ao final sem uma resposta para a dúvida que até hoje atormenta o Brasil: Capitu traiu ou não traiu?

Atire pedras, a mulher que não se identifica com Capitu. O mistério também é uma arma!...
Depois de milhões de anos de falta de prioridade e tempo, voltei a este bidê coletivo para dividir lorotas e formas de ver a vida e suas coisas. Tragam seus bacamartes!